segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Recordando António Aleixo

António Fernandes Aleixo
(Vila Real de Santo António, 18 de Fevereiro de 1899 - Loulé, 16 de Novembro de 1949)


O poeta António Aleixo, cauteleiro e pastor de rebanhos, cantor popular de feira em feira, pelas redondezas de Loulé (Algarve - Portugal) é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia.
Não sendo totalmente analfabeto, sabe ler e leu meia dúzia de bons livros - não é porém capaz de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe deu qualificação para poder ser considerado um poeta culto. Mas ficou sendo conhecido por o maior poeta popular, o poeta do povo. Todavia, há nos versos que fazem parte do seu livro "Este livro que vos deixo", uma correcção de linguagem e sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixa de impressionar.
António Aleixo compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes cantando numa feira ou festa de aldeia, outras, a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionado por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente.
Passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria - sua mais habitual ocupação, por isso também chamado "poeta cauteleiro" ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta e lá vem a quadra ou a sextilha, a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, normalmente, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.
O que caracteriza a poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens.

Joaquim Magalhães, In Este Livro que vos deixo...

Uma dúzia de quadras muito conhecidas:

Eu não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria
Mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.

Embora os meus olhos sejam,
Os mais pequenos do Mundo
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.

P'ra mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão

Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes - esqueceste
Tudo o que prometias...

O mundo só pode ser
Melhor do que até aqui,
Quando consigas fazer
Mais p'los outros que por ti!

Os novos que se envaidecem
Pelo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.

Uma mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

Se os homens chegam a ver
Por que razão se consomem,
O homem deixa de ser
O lobo do outro homem.

Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir
Por ver que eles mesmos são
Incapazes de os seguir.

Para triunfar depressa
Cala contigo o que vejas
Finge que não te interessa
Aquilo que mais desejas.

São parvos, não rias deles,
Deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
Que valem mais do que nós.

1 comentário:

  1. Tal e qual !.....

    Grandre António Aleixo !

    "São parvos, não rias deles,
    Deixa-os ser, que não são sós:
    Às vezes rimos daqueles,
    Que valem mais dos que nós."

    E por isso, depois de muito exitar, resolvi dar o salto para o meu cantinho ", os bastidoresdealmaemar"...

    E eles, que se riam se quiserem....



    Eu cá, entrei aqui e gostei.

    Bj,

    Maria Campos

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