sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

A propósito da "cabra do Gerês": mais um embuste do PNPG

Foto retirada daqui

Numa visita ao blogue com mais informação sobre Terras de Bouro, deparei com o post http://terrasbouro.blogspot.com/2011/02/eram-75-e-agora-ja-sao-450-cabras-do.html. Hesitante entre o comentário e a postagem no "pass'Aarão", decidi-me por esta, para referir o seguinte:

Aí por volta de 1994/95 (o erro não pode ser grande), eu, um colega meu e um responsável do PNPG, de quem esse colega era amigo, fomos visitar a cerca, em Torneros (Lobios), Espanha, onde estavam em estudo e adaptação alguns exemplares da “capra pyrenaica victoriae”, trazidos precisamente de centros de recuperação espanhóis. (1)
O que recordo dessa visita são, sobretudo, as críticas - profunda, ecológica e cientificamente sentidas - do sr. engenheiro que nos acompanhava, acusando os nossos vizinhos galegos de insensibilidade ambiental, de ignorância e de trapalhice, por introduzirem (nas proximidades do santuário geresiano, deus nosso!) uma espécie trazida dos Pirenéus, parente mais ou menos afastada da autóctone cabra do Gerês, é certo, mas exógena às caractrerísticas florestais, ambientais, climáticas... desta região, e que viria, por certo (na sua mui douta sapiência), provocar desequilíbrios no ecossitema presente!

Podeis estar absolutamente seguros de que aquilo que, inicialmente, foi malquisto pelo purismo ambientalista do PNPG é, agora, a menina dos seus olhos, a pérola mais valiosa, o único troféu que tem para exibir em 40 anos de existência... afinal, fruto de um "crime" ambiental dos nossos amigos galegos.

A introdução - animal, planta ou calhau - jamais poderia ter acontecido por iniciativa do Parque Nacional, cuja política se tem cingido a não intervir, mesmo que a intervenção seja de valorização, a não mexer, a não fazer nada... São dezenas e dezenas de técnicos, entre biólogos, zoólogos, botânicos... engenheiros ambientais, florestais, paisagísticos... só para proibir, proibir, proibir...

No referido post, citando o Correio do Minho, é dito que o estudo da revista National Geographic conclui que: “a população está segura e o futuro parece garantido” para a cabra do Gerês no vale onde corre a ribeira dos Fornos e vai pastar ao Pitão da Carvalhosa". Trata-se, pois, de mais um embuste com que o PNPG "nos" quer iludir: as cabras introduzidas não são "cabras do Gerês", da subespécie "capra pyrenaica lusitanica", extinta em finais do séc. XIX, cujo último exemplar terá sido avistado e capturado em 20-IX-1890.

Desafio o "biólogo Armando Loureiro (que) revela à revista (National Geographic deste mês) a existência de três núcleos de cabras, um a poente com a Serra Amarela-Cabril, outro nos picos mais altos do Gerês e outro a nascente, em Pitões das Júnias" que venha, aqui ou onde entender, desenganar-me e dizer, com rigor científico, se as cabras que andam nas ditas serras são, de facto, descendentes da genuína cabra do Gerês... ou são, antes, cabras dos Pirenéus a pastarem no Gerês.

(1) - Segundo um dos comentários de Frederico V: "As pyrenaica victoriae que existem no Gerês vieram da serra de Gredos no centro de Espanha. A última pyrenaica dos Pireneus (uma terceira sub espécie: pyrenaica pyrenaica) também está extinta.

5 comentários:

  1. Bom dia, efectivamente esses animais não são cabra do Gerês. A pyrenaica lusitanica está extinta e assim irá continuar. Mas também não são cabras dos Pirenéus. As pyrenaica victoriae que existem no Gerês vieram da serra de Gredos no centro de Espanha. A última pyrenaica dos Pireneus (uma terceira sub espécie: pyrenaica pyrenaica) também está extinta.
    De resto concordo com tudo o que escreveu, se dependesse o ICNB ou qualquer responsável pelos parques portugueses, nunca nada seria feito. Tanto na Galiza como noutras zonas de fronteira, são os espanhóis que têm ajudado ao aumento da biodiversidade em Portugal.

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  2. De fato, nestes 40 anos de Parque Nacional - lembro-me bem do entusiasmo com que fiquei quando da sua criação, sendo presidente da republica o Sr. Almirante Américo Tomás - o patrimônio natural só tem vindo a diminuir, por culpa de administrações publicas incompetentes e desinteressadas que depois se seguiram. Havia águias reais, não há mais; havia perdizes cinzentas, não há mais; havia lebres, não há mais...O parque perdeu belas florestas naturais e plantadas...E foi enriquecimento os espanhóis terem introduzido algumas cabras montesas, da sub-espécie de Gredos, para acontecer um enriquecimento da fauna. O que esperamos para re-introduzir o veado? Que os espanhóis o façam?
    Sdçs

    João Gabriel de Osório Barbedo Marques
    Rio de Janeiro

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  3. João Marques, efectivamente os Espanhóis já o fizeram. Na última década começaram a aparecer veados no PNPG vindos da Galiza. Este regresso não foi tão "brutal" como o das cabras montês. Passados dez anos continuam a ser raras as observações, mas a equipa do site vernatureza conseguiu fotografar um dos exemplares há uns meses.
    http://www.vernatureza.org/?p=218

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  4. FredericoV,
    a confirmar aquilo que diz, fui há tempos informado por um proprietário de gado que pasta nos prados da antiga aldeia de Vilarinho da Furna, do avistamento de um veado com um porte significativo e boas hastes, aquando de uma das suas frequentes incursões pela Serra Amarela para controlo de bezerros e garranos.
    Obrigado por ter colocado o link do “vernatureza”, site que muito me interessou e que passarei a visitar regularmente.

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