quarta-feira, 28 de março de 2012

Pedro Barroso: o último dos trovadores...

Ontem, tive um sarau futebolístico. Dos quatro "onzes" em confronto na liga dos campeões, só não tinha portugueses... o português! E perdeu!
Hoje, deu-me p'ra ouvir "Cantos da Paixão e da Revolta", o último álbum de Pedro Barroso.
Gosto muito, sobretudo de "In nominae", cuja letra-poema é do meu conterrâneo e amigo, poeta da montanha, João Luís Dias (que já AQUI anunciara), e "Dá-me uma gota de ti":


Dei comigo
ao vidro baço e lento da janela
no palpebrar
cadente e moreno
dos teus olhos
a noite é apenas noite
e o silêncio
mudo
e apenas se ouve o sussurro
dos versos que te chamam…
em nome de tudo e de todos
os que ainda
amam


E o sorriso
foi dormir antes de mim
querendo-me a cama
morna
Se ausente te sei
mesmo que só um pouco
todo eu parto de mim
p’ra regressar-te
aos meus braços
louco
até que acorde
de tudo o que sonhei
nos beijos esquivos
que me chamam
e me sinta poeta do sentir
eu que nada sei
em nome de tudo e todos
os que ainda
amam


Dá-me uma gota de ti
Uma palavra que seja
Despida de todos os sinais
Vestida noutro lugar
Onde apitem vendavais
E gaivotas a cantar

Dá-me uma flor desfolhada
Com seiva de água na boca
E lonjuras de moinhos
Como alquimias de vento
A rasgar céus em pedaços
Como estilhaços do tempo

Dá-me um chá preto das cinco
E o Bolero de Ravel
Com a pauta sussurrada
Entre beijos no meu peito
Lábios carnudos que eu sinto
E o sabor da tua pele

Dá-me um trago de ti mesma
Em copo de ouro e cristal
P'ra que escondidos na noite
Celebremos o teu corpo
Com excessos soletrados
Num desrespeito total

1 comentário:

  1. Pedro Barroso é eterno, lutando contra ventos e marés, defendendo até à exaustão a música portuguesa, é daqueles homens a que chamamos "antes quebrar que torcer". E é uma pena que a sua música seja tão pouco divulgada, tem canções fantásticas, desde a canção politica mais apaixonada até à canção romãntica mais profunda. Eu que possuo praticamente a sua obra completa (só me falta o ultumo cd) incluindo disco de poesia dou por mim vezes sem conta a escutar este "monstro" da nossa intelectualidade. Que pena ele ter nascido neste miserável país que não sabe dar valor aos seus. joebarbosa@sapo.pt

    ResponderEliminar