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quarta-feira, 2 de julho de 2014

Recordando Sophia de Mello Breyner Andresen, no dia da sua trasladação para o Panteão Nacional


Não é fácil escolher um poema de Sophia para colocar aqui, tantos e tão significativos eles são!... 
                                   Porque os outros se mascaram, mas tu não.
                                   Porque os outros usam a virtude
                                   Para comprar o que não tem perdão.
                                   Porque os outros têm medo, mas tu não.
                                   Porque os outros são os túmulos caiados
                                   Onde germina calada a podridão.
                                   Porque os outros se calam, mas tu não.

                                   Porque os outros se compram e se vendem
                                   E os seus gestos dão sempre dividendo.
                                   Porque os outros são hábeis, mas tu não.

                                   Porque os outros vão à sombra dos abrigos
                                   E tu vais de mãos dadas com os perigos.
                                   Porque os outros calculam, mas tu não.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Hoje, proponho este poema: "Os Amigos", de Camilo Castelo Branco


                                Amigos, cento e dez, ou talvez mais,

                                Eu já contei. Vaidades que eu sentia:
                                Supus que sobre a terra não havia
                                Mais ditoso mortal entre os mortais!

                                Amigos, cento e dez!  Tão serviçais,
                                Tão zelosos das leis da cortesia
                                Que, já farto de os ver, me escapulia
                                Às suas curvaturas vertebrais.

                                Um dia adoeci profundamente. Ceguei.
                                Dos cento e dez houve um somente
                                Que não desfez os laços quase rotos.

                                Que vamos nós (diziam) lá fazer?
                                Se ele está cego, não nos pode ver.
                                - Que cento e nove impávidos marotos!  

                                                                                                   Camilo Castelo Branco

terça-feira, 27 de maio de 2014

Hoje, proponho este poema: "Sê", de Pablo Neruda



                                "Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
                          Sê um arbusto no vale, mas sê
                          O melhor arbusto à margem do regato.
                          Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
                          Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
                          E dá alegria a algum caminho.

                          Se não puderes ser uma estrada,
                          Sê apenas uma senda.
                          Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
                          Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
                          Mas sê o melhor no que quer que sejas."

                                                                                                              Pablo Neruda


(Dedicado ao meu Pai, que sempre foi “o melhor”, no dia do seu 82º aniversário)

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Não passarão" - de Miguel Torga

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sonho vertido
E o sonho desfeito.

Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na sua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação,
Não morre um povo!

Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

In Poemas Ibéricos

segunda-feira, 10 de junho de 2013

No "Dia de Camões"...

Ao desconcerto do Mundo

Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.

                  Luís de Camões

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

No meio do caminho... tinha uma pedra!

katiakiss.wordpress.com/2011/02/24/a-pedra-no-meio-do-caminho/

No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

In Alguma Poesia
Ed. Pindorama, 1930

domingo, 25 de setembro de 2011

Hoje, proponho este poema: "As pessoas sensíveis", de Sophia de Mello Breyner Andresen

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
O dinheiro cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão.

"Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito

Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem.

Sophia de Mello Breyner Andresen (Livro sexto)

segunda-feira, 13 de junho de 2011

123º aniversário de Fernando Pessoa


Conheça melhor Fernando Pessoa

"Cada dia sem gozo não foi teu
Foi só durares nele.
Quanto vivas,
Sem que o gozes, não vives.

Não pesa que amas, bebas ou sorrias:
Basta o reflexo do sol ido na água
De um charco, se te é grato.

Feliz o a quem, por ter em coisas mínimas
Seu prazer posto, nenhum dia nega
A natural ventura!"

Ricardo Reis
............................................................................
"Pensar incomoda como andar à chuva"
"Pensar é estar doente dos olhos"

"...
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la
E comer um fruto é saber-lhe o sentido..."

Alberto Caeiro
............................................................................
"...
Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?..."

Álvaro de Campos

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Flor da Liberdade, de Miguel Torga

Sombra dos mortos, maldição dos vivos.
Também nós... Também nós... E o sol recua.
Apenas o teu rosto continua
A sorrir como dantes,
Liberdade!
Liberdade do homem sobre a terra,
Ou debaixo da terra.
Liberdade!
O não inconformado que se diz
A Deus, à tirania, à eternidade.

Sepultos, insepultos,
Vivos amortalhados,
Passados e presentes cidadãos:
Temos nas nossas mãos
O terrível poder de recusar!
E é essa flor que nunca desespera
No jardim da perpétua primavera.

Miguel Torga, in "Orfeu Rebelde", 1958

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Recordando António Aleixo

António Fernandes Aleixo
(Vila Real de Santo António, 18 de Fevereiro de 1899 - Loulé, 16 de Novembro de 1949)


O poeta António Aleixo, cauteleiro e pastor de rebanhos, cantor popular de feira em feira, pelas redondezas de Loulé (Algarve - Portugal) é um caso singular, bem digno de atenção de quantos se interessam pela poesia.
Não sendo totalmente analfabeto, sabe ler e leu meia dúzia de bons livros - não é porém capaz de escrever com correcção e a sua preparação intelectual não lhe deu qualificação para poder ser considerado um poeta culto. Mas ficou sendo conhecido por o maior poeta popular, o poeta do povo. Todavia, há nos versos que fazem parte do seu livro "Este livro que vos deixo", uma correcção de linguagem e sobretudo, uma expressão concisa e original de uma amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida, que não deixa de impressionar.
António Aleixo compõe e improvisa nas mais diversas situações e oportunidades. Umas vezes cantando numa feira ou festa de aldeia, outras, a pedido de amigos que lhe beliscam a veia; ora aproveitando traços caricaturais de pessoas conhecidas, ora sugestionado por uma conversa de tom mais elevado e a cuja altura sobe facilmente.
Passeando, sozinho, a guardar umas cabras ou a fazer circular as cautelas de lotaria - sua mais habitual ocupação, por isso também chamado "poeta cauteleiro" ou acompanhado por amigos, numa ceia ou num café, o poeta está presente e alerta e lá vem a quadra ou a sextilha, a fixar um pensamento, a finalizar uma discussão, a apreciar um dito ou a refinar uma troça. E, normalmente, a forma é lapidar, o conceito incisivo e o vocabulário justo e preciso.
O que caracteriza a poesia de António Aleixo é o tom dorido, irónico, um pouco puritano de moralista, com que aprecia os acontecimentos e as acções dos homens.

Joaquim Magalhães, In Este Livro que vos deixo...

Uma dúzia de quadras muito conhecidas:

Eu não tenho vistas largas
Nem grande sabedoria
Mas dão-me as horas amargas
Lições de Filosofia.

Embora os meus olhos sejam,
Os mais pequenos do Mundo
O que importa é que eles vejam
O que os homens são no fundo.

P'ra mentira ser segura
E atingir profundidade
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Que importa perder a vida
Em luta contra a traição,
Se a Razão mesmo vencida,
Não deixa de ser Razão

Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes - esqueceste
Tudo o que prometias...

O mundo só pode ser
Melhor do que até aqui,
Quando consigas fazer
Mais p'los outros que por ti!

Os novos que se envaidecem
Pelo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.

Uma mosca sem valor
Poisa c'o a mesma alegria
Na careca de um doutor
Como em qualquer porcaria.

Se os homens chegam a ver
Por que razão se consomem,
O homem deixa de ser
O lobo do outro homem.

Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir
Por ver que eles mesmos são
Incapazes de os seguir.

Para triunfar depressa
Cala contigo o que vejas
Finge que não te interessa
Aquilo que mais desejas.

São parvos, não rias deles,
Deixa-os ser, que não são sós:
Às vezes rimos daqueles,
Que valem mais do que nós.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Não morro de paixão pelo romantismo, mas Almeida Garrett é incontornável na nossa literatura.

Para o conhecer melhor,
clique na imagem
"João Baptista da Silva Leitão de Almeida e mais tarde visconde de Almeida Garrett, (Porto, 4 de Fevereiro de 1799 — Lisboa, 9 de Dezembro de 1854) foi um escritor e dramaturgo romântico, orador, Par do Reino, ministro e secretário de Estado honorário português.
Grande impulsionador do teatro em Portugal, uma das maiores figuras do romantismo português, foi ele quem propôs a edificação do Teatro Nacional de D. Maria II e a criação do Conservatório de Arte Dramática." (wikipédia)



Os Cinco Sentidos

São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:
Em toda a natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa.
será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,
Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

Respira - n'aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste,
Sei... não sinto: minha alma não aspira,
Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:
E eu tenho fome e sede... sequiosos,
Famintos meus desejos
Estão... mas é de beijos,
É só de ti - de ti!

Macia - deve a relva luzidia
Do leito - ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti! - em ti!

A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.
Em ti a minha sorte,
A minha vida em ti;
E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Hoje proponho este "Pequeno Poema", de Sebastião da Gama

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama, Serra Mãe

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Mea Culpa, por Antero de Quental


clique na foto
Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;          
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.

A Natureza é minha mãe ainda...
É minha mãe... Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza...
É de crer que só eu seja o culpado!

Antero de Quental, in "Sonetos"

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Poeminha do Contra, de Mário Quintana

Todos estes que aí estão
Atravacando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!

Mário Quintana

sábado, 25 de dezembro de 2010

Hoje, proponho este poema: "Kyrie", de José Carlos Ary dos Santos*

                                                  Em nome dos que choram,
                                                  Dos que sofrem,
                                                  Dos que acendem na noite o facho da revolta
                                                  E que de noite morrem,
                                                  Com esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

                                                                  José Carlos Ary dos Santos, Kyrie

* - por sugestão da minha irmã Zi.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Hoje, proponho este poema: "Poema do Futuro", de António Gedeão

Conscientemente escrevo e, consciente,
medito o meu destino.

No declive do tempo os anos correm,
deslizam como a água, até que um dia
um possível leitor pega num livro
e lê,
lê displicentemente,
por mero acaso, sem saber porquê.
Lê, e sorri.
Sorri da construção do verso que destoa
no seu diferente ouvido;
sorri dos termos que o poeta usou
onde os fungos do tempo deixaram cheiro a mofo;
e sorri, quase ri, do íntimo sentido,
do latejar antigo
daquele corpo imóvel, exumado
da vala do poema.

Na História Natural dos sentimentos
tudo se transformou.
O amor tem outras falas,
a dor outras arestas,
a esperança outros disfarces,
a raiva outros esgares.
Estendido sobre a página, exposto e descoberto,
exemplar curioso de um mundo ultrapassado,
é tudo quanto fica,
é tudo quanto resta
de um ser que entre outros seres
vagueou sobre a Terra.

António Gedeão, in 'Poemas Póstumos'

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Hoje, proponho este poema: "Demissão", de José Saramago

Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Hoje, proponho este poema: "O Constante Diálogo", de Carlos Drummond de Andrade

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
               o semelhante
               o diferente
               o indiferente
               o oposto
               o adversário
               o surdo-mudo
               o possesso
               o irracional
               o vegetal
               o mineral
               o inominado

Diálogo consigo mesmo
               com a noite
               os astros
               os mortos
               as ideias
               o sonho
               o passado
               o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
               e
tua melhor palavra
               ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Hoje, proponho este poema: "Sísifo", de Miguel Torga

Recomeça....
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga, Diário XIII